A próxima edição da SP-Arte marca um ponto de inflexão no percurso de Lucas Dualde e Pali Cornelsen, que apresentam pela primeira vez um estande próprio na feira. A estreia sinaliza o amadurecimento de uma linguagem construída ao longo de uma década de convivência criativa entre três países: Brasil, Espanha e Estados Unidos, agora voltada a dialogar de forma mais direta com o circuito nacional.
A parceria nasce de uma amizade de vinte anos e de uma sintonia rara entre formação humanista, repertórios modern-istas e práticas artesanais. Lucas, espanhol radicado há 13 anos em São Paulo, opera no cruzamento entre arquitetura, interiores e mobiliário, articulando um vocabulário que deriva tanto das referências familiares quanto do legado de seu tio-avô, o arquiteto Josep Lluís Sert, assim como das paisagens formativas das praias de Comillas, no norte da Espanha. Pali, designer brasileiro que vive entre Nova York e Los Angeles, em sua prática, que abrange o desenho de interiores e de mobiliário, desenvolve uma investigação contínua sobre conceitos materiais, superfícies naturais, minerais e pigmentos, em diálogo direto com o legado de seu pai, o artista Jejo Cornelsen.
A SP-Arte surge, para ambos, como o momento de condensar essa trajetória em uma nova etapa da pesquisa. A dupla indica que não se trata apenas de dar continuidade à marcenaria de encaixes de precisão e às materialidades que vêm explorando, mas de deslocar essa linguagem, abrindo espaço para experimentações que ampliam a técnica e a percepção tátil das peças.
Entre os trabalhos apresentados, destacam-se duas séries de luminárias que emergem de uma investigação sobre os limites entre objeto utilitário e expressão escultórica, expandindo o vocabulário do estúdio em direção a uma dimensão mais livre e expressiva.Desenvolvida a partir de um diálogo direto entre o estúdio e Jejo Cornelsen, a primeira coleção parte de blocos de madeira manualmente fendidos – em um gesto próximo ao ato de rachar lenha – posteriormente pigmentados segundo uma. paleta concebida em colaboração com o artista. Esses elementos. são organizados em composições verticais de diferentes escalas, dando origem a tipologias diversas: luminárias de mesa, de piso e uma peça expansiva que se articula do chão ou do teto, cuja cúpula central remete, de forma sutil, ao vocabulário de George Nakashima.
Nas demais peças, as cúpulas são realizadas em tecido bordado artesanalmente, assumindo geometrias deliberadamente desestruturadas, quase em estado de decomposição formal. A série inclui. ainda uma arandela composta por fragmentos de madeira dispostos como uma pele sobre uma estrutura tubular fixada à parede – referência indireta aos shingles da arquitetura vernacular norte-americana. Nessa peça, a luz emerge por entre as fissuras e sobreposições da madeira, ativando a superfície como relevo luminoso. A segunda série se desenvolve a partir da cerâmica, onde cilindros em diferentes diâmetros e tonalidades são empilhados verticalmente em estruturas que variam de versões compactas para mesa a intervenções que atravessam toda a altura do ambiente. Aqui, o acabamento recusa a perfeição, celebrando a imperfeição como marca do processo: cada elemento preserva vestígios de sua produção, enquanto algumas peças são coroadas por tecidos em estado deliberado de dissolução, criando uma tensão poética entre o geométrico e o orgânico. A luz, elemento estruturante, filtra-se através da cerâmica, do linho e da seda, transformando-se em emanações difusas que evocam fontes primordiais.
Desse mesmo campo de investigação emerge a mesa central daexposição: uma peça de presença densa e silenciosa, construída a partir de um tampo circular em madeira maciça ebanizada, cujo perfil suavemente curvo sugere um gesto tátil, quase convidando ao toque. O suporte retoma a lógica da série de luminárias, sendo composto por secções de tronco empilhadas verticalmente e pintadas à. mão por Jejo Cornelsen, transformando a base em uma estrutura simultaneamente construtiva e pictórica. O aparador Tres formas, em peroba mica ebanizada, compartilha a mesma lógica construtiva: prateleiras de madeira que flutuam no espaço, sustentadas por três peças fundidas em bronze que estabelecem uma referência poética ao trabalho Three Forms da escultora Barbara Hepworth. Mais do que um conjunto de peças, o projeto se apresenta como um campo contínuo de investigação, onde matéria, técnica e gesto se articulam na construção de uma linguagem própria.
O gesto de apresentar esse desdobramento no Brasil carrega outro significado: é o início de um movimento deliberado de aproximação com o mercado nacional. A presença com estande próprio na feira reposiciona a dupla, inserindo-a de modo mais evidente na discussão sobre o lugar do design autoral brasileiro hoje, em um contexto em que práticas. artesanais, construtivas e matéricas voltam a. ganhar centralidade. A participação de Dualde Cornelsen na SP-Arte acompanha uma mudança em processo: uma dupla que reorganiza sua geografia, revisita sua própria linguagem e escolhe o Brasil e a feira como palco para essa apresentação.